sexta-feira, 25 de maio de 2012

SURDEZ PROFUNDA: OUVIR NÃO É O LIMITE


MELO, Johnny Silva
XAVIER, Rosiete Gouveia Melo
VASCONCELOS, Silvana da Silva
SILVA, Vera Lucia Pontes Laurentino

Começo de conversa...

Este documento tem como foco central a reflexão acerca das questões intrínsecas à Surdez Profunda no âmbito escolar. A base fundamental desta produção é os estudos de articulistas que tratam de concepções inerentes à deficiência auditiva e/ou surdez na perspectiva social e educacional. Esta discussão será desenvolvida em cinco vertentes principais: A importância do diagnóstico precoce; Diagnosticando a surdez na sala de aula; Integração escolar e processo educacional do aluno surdo; Alternativas de comunicação com surdos; Tecnologias voltadas para o uso de pessoas com deficiência auditiva.
Fazendo um curso pela história da educação dos surdos, percebemos que este assunto estava em pauta desde outrora, porém nem sempre voltado para as reais necessidades de quem era acometido por surdez. Na antiguidade, acreditava-se que quando não se falava, o sujeito não possuía linguagem, nem tampouco pensamento. Sendo assim, a surdez tinha conotação de retardo mental. A linguagem dava ao indivíduo a condição de humano, portanto, sem linguagem o surdo era considerado não-humano, sendo privado de todos os direitos legais.
 A partir do século XIV, surge a Língua dos Sinais e, com ela, a oportunidade do surdo aprender a ler e a escrever sem a fala, desmistificando o conceito de que os surdos não poderiam aprender porque tinham lesões cerebrais. Posteriormente, a Língua dos Sinais foi acrescida de gramática e números, mas teve um retrocesso em meados do século XVIII, quando surgiu o Movimento Oralista Alemão[1] cujo princípio era o de que a Língua dos Sinais “atrofiava a mente” e, por isso, sugeria Sinais e o Alfabeto Digital como instrumentos para atingir a fala.
Nessa mesma época, educadores que defendiam o uso da Língua de Sinais fundaram a primeira escola para surdos: Instituto Nacional Para Surdos em Paris, propiciando ao surdo não-oralizado a chance de ser visto como humano, realizando tarefas dantes designadas só a ouvintes. A Língua dos Sinais é disseminada pelo mundo e os professores começam a adquirir o seu domínio. Com o Congresso de Milão, em 1880, determinou-se que a Língua de Sinais deveria ser utilizada como apoio à Língua Oral, porém esta sobrepunha àquela. Hoje, com os avanços tecnológicos e a implementação de leis que amparam os deficientes, já é possível a inclusão digital dos portadores de necessidades especiais através da computação móvel, e os olhares da sociedade estão focalizados na igualdade de direitos entre todos, conforme preconiza a Legislação.

1. A importância do diagnóstico precoce

É um consenso entre os médicos que a audição é de fundamental importância para o desenvolvimento pleno da comunicação, seja da linguagem falada, seja no desenvolvimento emocional, educacional e social da criança. Sua privação sensorial auditiva compromete não apenas sua comunicação, como também seu potencial de linguagem receptiva e expressiva, sua alfabetização (leitura e escrita), seu desenvolvimento acadêmico.
As pessoas costumam confundir surdez com deficiência auditiva. Porém, estas duas noções não devem ser encaradas como sinônimos. A surdez, sendo de origem congênita, é quando se nasce surdo, isto é, não se tem a capacidade de ouvir nenhum som. Por consequência, surge uma série de dificuldades na aquisição da linguagem, bem como no desenvolvimento da comunicação. Por sua vez, a deficiência auditiva é um déficit adquirido, ou seja, é quando se nasce com uma audição perfeita e depois a perde, devido a lesões ou doenças. Nestas situações, na maior parte dos casos, a pessoa já aprendeu a se comunicar oralmente. Porém, ao adquirir esta deficiência, vai ter que aprender a comunicar-se de outra forma.
A deficiência auditiva é definida como uma diminuição da acuidade auditiva no qual há um desvio ou mudança nas estruturas ou da função auditiva, situando-se fora dos limites da normalidade. A disciplina Inclusão e Tecnologias Assistivas (ITA) destaca: “[...] aqueles que não ouvem entre 15 e 30 decibéis já são considerados deficientes auditivos leve. No caso de portadores de deficiência auditiva profunda, o barulho de uma britadeira quebrando um asfalto, acima de 90 decibéis não é notado”.
A audição começa a se desenvolver a partir do 5º mês de gestação e se intensifica nos primeiros meses de vida. A surdez pode ser causada por vários motivos, como histórico familiar, infecção intra-uterina, provocado por rubéola, sífilis, anomalias crânios-faciais; peso inferior a 1,5 quilos ao nascer, entre outros. Quando a perda da capacidade auditiva acontece antes do desenvolvimento da fala (pré-lingual), as dificuldades de comunicação são bem maiores, podendo causar isolamento e até depressão.
A deficiência auditiva é o problema sensorial de maior incidência na população. Em mil crianças nascidas no Brasil, de duas a sete apresentam problema de surdez. O teste para a surdez pode ser feito juntamente com o do “pezinho”. Segundo a fonoaudióloga Ieda Chaves Pacheco Russo[2] (2007),

Hoje em dia em nossa realidade já é possível diagnosticar a deficiência auditiva em bebês recém nascidos, observando nas respostas reflexas que estes apresentam a estímulos sonoros intensos e submetendo-se a avaliações objetivas como as emissões otoacústicas evocadas e os potenciais elétricos auditivos de tronco encefálico, procedimentos seguros e de rápida aplicação. Para tanto, é fundamental que a mãe levante a suspeita observando se o bebê acorda com barulhos, olha quando é chamado, escuta a campainha de casa e do telefone, assusta-se com as portas que batem.

Assim o diagnóstico preciso e principalmente precoce da deficiência auditiva é importantíssimo, pois é através dele que será realizada a intervenção necessária para um desenvolvimento satisfatório na evolução do quadro. O ideal é que esse diagnóstico seja realizado nos primeiros seis meses de vida para adequar, se necessários, os métodos fonoaudiológicos e educacionais que deverão ser utilizados na reabilitação e/ou na habilitação de uma criança com deficiência auditiva. No Brasil, porém a idade média de diagnóstico é de quatro anos, considerada muito tardia pelos médicos. Porém, nos últimos anos, programas de identificação precoce dos distúrbios de audição vêm sendo desenvolvidos junto à população.

2. Diagnosticando a surdez na sala de aula
A linguagem afirma a pessoa humana e a humanidade como sujei­tos de seu destino. É por meio da linguagem que, na condição de indiví­duos, dimensionamos o nosso mundo interior, o mundo ao nosso redor, o mundo com o qual sonhamos. Também por meio dela, a humanidade pode dimensionar seus valores, suas relações sociais, suas aspirações de justiça e liberdade. (BRASIL, 2001)

A audição é muito importante no processo de aprendizagem. É um pré-requisito para o desenvolvimento da linguagem, uma vez que desempenha papel preponderante e decisivo na aquisição da fala e da escrita. A perda auditiva é uma deficiência que, se não detectada e tratada em tempo hábil, pode levar a um retardo sério no desenvolvimento de fala e linguagem, além de gerar problemas sociais, emocionais, educacionais e de saúde. A falta de estimulação acústica nos primeiros anos de vida gera uma lacuna de difícil recuperação, por tratar-se de um período crítico para o desenvolvimento de funções que possibilitarão a aquisição de linguagem em tempo certo.
Como já foi mencionado, a identificação precoce de qualquer alteração auditiva é muito importante, principalmente durante os três primeiros anos de vida da criança. Infelizmente, os problemas auditivos nesta faixa etária, muitas vezes, são mais dificilmente detectados, principalmente quando não há uma deficiência auditiva considerável.
Mas a preocupação com a audição da criança não deve cessar logo após o seu nascimento. Mesmo crianças com exame normal ao nascer podem desenvolver perda auditiva progressiva ao longo dos meses. Recomenda-se que toda criança seja submetida à Audiometria pelo menos uma vez, exame este que será repetido, posteriormente, a critério do médico assistente. Em especial, no período de alfabetização é de extrema importância que a criança realize uma Audiometria.
O diagnóstico audiológico infantil é realizado, principalmente, através dos exames de Audiometria e Impedanciometria. Em casos especiais são indicados a Audiometria de Tronco Cerebral, onde se avalia a condução do estímulo pelo tronco cerebral (BERA) e as Emissões Otoacústicas. O exame de audição, ao qual chamamos de Audiometria Tonal, é indolor, de fácil aplicação e apresenta resultados rápidos.
Espera-se que cada vez mais pais e professores conscientizem-se da necessidade de visitar um audiologista desde os primeiros anos de vida da criança, entendendo que a consulta é, antes de tudo, de caráter preventivo.
Se a criança é desatenta, indisciplinada ou apresenta baixo desempenho nas atividades escolares, o motivo pode estar diretamente ligado à diminuição da acuidade auditiva. Ou seja, a incapacidade de lidar com os sons gera falta de interesse e outras alterações, como a troca e/ou inversão de letras, desorganização espacial e dificuldades de compreensão.
Outro aspecto relacionado à audição, e que até pouco tempo não era diagnosticado, diz respeito às Desordens do Processamento Auditivo (DPA). Nestes casos, a criança escuta bem, porém não consegue compreender o que lhe foi dito. A escola geralmente é o local onde essas dificuldades de audição, conhecidas por DPA, mais se manifestam. Isso devido às dinâmicas das aulas, que necessitam de muita atenção e concentração, que são os pontos fracos destas crianças.
Os professores geralmente percebem este problema e relatam que seu aluno só ouve quando quer e que sempre pede para repetir o que lhe é falado. Também podem ser indícios de DPA dificuldades de localizar a origem do som, compreensão de matérias ou frases e problemas na fala, como trocas dos fonemas L e R.
Existem algumas situações que podem ajudar o professor na identificação de crianças com problemas de surdez. São elas:
  • A criança parece desatenta, não compreende o que o professor e os colegas de sala falam, necessita que repitam várias vezes o que lhe é dito, ou não grava o que é falado;
  • A criança não vira a cabeça quando é chamada;
  • A criança apresenta dificuldade de atenção, concentração e memória;
  • A criança não entende as palavras;
  • A criança apresenta problemas na fala, principalmente as que não produzem os fonemas L e R.
A aprendizagem auditiva começa com a detecção, a discriminação, a localização e o reconhecimento de sons. Ouvir é extremamente significativo para todos. Afinal, como iríamos adquirir fala com um déficit no canal auditivo, sem uma intervenção precoce? Quanto mais cedo a alteração for diagnosticada, mais facilmente poderá ser corrigida, pois as habilidades auditivas poderão ser treinadas por um profissional especializado. Neste caso, o fonoaudiólogo trabalhará na perspectiva de diminuir ou eliminar as dificuldades apresentadas no processo auditivo. Neste tipo de terapia, todos os pacientes são beneficiados e aproximadamente 80% eliminam totalmente o problema.

3. Integração escolar e processo educacional do aluno surdo

            Integração é um processo dinâmico de participação das pessoas num contexto relacional, legitimando sua interação nos grupos sociais. No que se refere à integração escolar de um aluno surdo, precisa-se reconhecer que esta não acontece imediatamente, logo após a sua matrícula em uma escola regular. Essa integração acontece individualmente, de acordo com as necessidades dos alunos, considerando a participação de todas as pessoas envolvidas no processo educacional: aluno surdo, família, professores, alunos ouvintes, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos e demais membros da escola.
            O aluno surdo deve frequentar o sistema regular de ensino porque tem os mesmos direitos que o aluno ouvinte. Ele precisa ficar exposto ao modelo linguístico nacional, visto que é no ambiente dos ouvintes que ele interatua com este modelo.
            A linguagem é responsável pela regulação da atividade psíquica humana, pois é ela que estabelece a estruturação dos processos cognitivos. É na vida social que a linguagem é adquirida. O sujeito surdo enfrenta dificuldades imensas no que tange à interação com o grupo social do qual faz parte. A barreira da deficiência auditiva favorece um distanciamento entre surdos e ouvintes, que resulta na maioria das vezes em preconceito.
De acordo com Botelho (1998), “O surdo não tem uma língua compartilhada com seus colegas e professores. Está em desigualdade linguística em sala de aula onde todas as pessoas são ouvintes e falantes de uma língua ‘estrangeira’.” O atraso da linguagem pode prejudicar o desenvolvimento do aluno surdo, acarretando em consequências emocionais, sociais e cognitivas.
A partir do momento em que a condição linguística do surdo é respeitada, aumentam as chances de ele desenvolver-se e construir novos conhecimentos de maneira satisfatória, em contraponto a uma integração escolar sem qualquer cuidado especial.
            Mas precisamos considerar que a inclusão do aluno surdo em classes regulares deve acontecer somente após sua alfabetização, quando o educando possuir razoável domínio da Língua Portuguesa, para que se possa garantir uma integração com qualidade. Segundo Sá (1997):

É preciso pensar se o ambiente menos restritivo para o surdo não seria a tão somente escola ou classe especial bilíngüe-bicultural; se o ingresso em turmas do ensino regular sempre que possível, não se enquadra nos casos impossíveis, ou de restrita possibilidade (haja vista os resultados conseguidos até hoje), ou, ainda, se o sempre que possível não poderia se referir ao período quando o surdo tivesse o conhecimento das duas línguas necessárias para o seu pleno desenvolvimento, sendo incluído nos anos posteriores e não no início da vida acadêmica, que são imprescindíveis para o domínio das línguas. (p. 31)

            O movimento de inclusão deve ter como princípio básico a valorização da diversidade humana. Cada aluno deve ser respeitado de acordo com o seu ritmo e suas formas de aprendizagem. Para isso, devem-se utilizar métodos de ensino individualizado e currículos adaptados. A escola deve estar organizada de forma que possa oferecer condições reais de aprendizagem para os alunos surdos. Ela precisa oferecer condições amplas de adequação, como: acomodações, equipamentos, materiais e recursos necessários, professores especializados, intérpretes de LIBRAS, além da criação de salas de recursos para atendimento ao aluno surdo em suas necessidades especiais.
            A escola deve ser um espaço criativo, sempre pronta a buscar soluções que visem à manutenção desse aluno no espaço da sala de aula regular, levando-o a obter resultados satisfatórios em seu desempenho acadêmico e social.
Os alunos surdos necessitam de apoio específico, de forma permanente ou temporária. Quem pode oferecer esse apoio é o intérprete de Língua de Sinais. A inserção de um intérprete de Língua de Sinais em sala de aula possibilita a transmissão das informações ali veiculadas. Sendo assim, o professor de sala não precisa se preocupar em dirigir-se diretamente ao aluno surdo. O intérprete fica responsável por transmitir a fala dos professores e, assim, estabelecer a comunicação entre ambos.
Mas o ideal seria que todos os professores tivessem domínio da Língua de Sinais. Sabemos que o ato de ensinar exige aplicação de métodos, utilização de diferentes recursos e abordagem eficiente. Sendo assim, não havendo interação entre professor e aluno surdo, o processo de ensino-aprendizagem será insatisfatório. Mesmo que o intérprete auxilie o professor no que se refere à transmissão da sua fala, ele pode não conseguir passar o conteúdo da mesma forma que o professor.
Não devemos incorrer no erro de atribuir ao intérprete à responsabilidade de ensinar o aluno. Compete a ele somente interpretar o que o professor está falando. Liderar a classe, ordenar o processo de ensino-aprendizagem, resumir aulas no quadro e avaliar o aluno são atribuições do professor regente.
            O desafio da inclusão requer mudanças de postura de todos que fazem a escola. Mas são os professores que lidam diretamente com os alunos surdos! Eles precisam estar capacitados para lidar com as diferenças.

[...] a criança que nos chega, em cada turma, a criança com deficiência, com dificuldades, o aluno inteligente, o menino de rua, o aluno do Supletivo [...], são os alunos que nos fazem profissionais apaixonados, inquietos, que precisam decifrar esses misteriosos seres, que nos provocam o encontro com um Outro desconhecido, que nos colocam em perigo, que nos mostram os nossos limites, mas que nos fazem ir além de nós mesmos. (MANTOAN, 2004, p. 81)

            Quando consideramos que todos os alunos são diferentes, somos capazes de perceber as suas necessidades e, assim, buscar os meios mais viáveis para lidar com essas diferenças. No caso do aluno surdo, se o professor regente souber falar a mesma língua que ele, isso o fará se sentir mais valorizado, o que pode contribuir bastante para a uma integração mais eficiente.
            A integração dos alunos surdos é um desafio que deve ser enfrentado com muito otimismo por todos nós. Devemos acreditar que somos capazes de criar um espaço de aprendizagem favorável ao crescimento intelectual e social desses alunos. Precisamos ter coragem, determinação e segurança para lidar com esses seres tão carentes de nosso afeto e atenção. Precisamos disseminar ainda a idéia de que a integração da criança surda inicia-se na família, na vizinhança, na comunidade onde está inserida. É participando ativamente do meio social que as crianças surdas derrubarão a barreira do preconceito. É interagindo com todos os seres, ouvintes e não-ouvintes, que elas desenvolverão suas potencialidades e exercerão a cidadania de forma plena e participativa.

4. Alternativas de comunicação com surdos

            A Comunicação, principalmente quando se trata de um aluno surdo, não é um processo fácil, no entanto, quanto mais alternativas se têm, maior é a probabilidade de se fazer entender. Os surdos utilizam a comunicação espaço-visual, como principal meio de conhecer o mundo em substituição à audição e à fala. Como já foi dito anteriormente, a interação do aluno surdo no processo escolar não depende só de um individuo, mas sim de fatores de ajuda: aluno, família, professor e demais elementos de uma escola.         
         Na sala de aula, o uso efetivo da Língua de Sinais (LIBRAS) é o que mais se destaca entre todas as maneiras de interagir com o aluno surdo. Os sinais são resultado da interação dos movimentos das mãos com suas formas e dos pontos no espaço ou no corpo onde esses movimentos são feitos. Outro fato importante na hora de realizar os sinais é a expressão facial; é ela que dá a entonação da frase ou da palavra. Para facilitar o processo comunicativo, todas as letras são consideradas maiúsculas, os verbos são usados no infinitivo e os pronomes são indicados por apontamento.
         Segundo o pesquisador Celso Socorro Oliveira, da Faculdade de Ciências (FC) da Universidade Estadual Paulista (UNESP),

LIBRAS não é só para surdos, ensina-se também para pessoas com outros tipos de deficiência. Trata-se de uma alternativa a mais. Porque, a partir disso, há um aumento no vocabulário e da competência ao trabalhar com palavras, fazendo com que essa pessoa se comunique melhor na comunidade onde ela está inserida, aumentando o processo de inclusão. (OLIVEIRA, 2002)

         Além da Língua de Sinais, há meios tecnológicos que ajudam na interação do aluno em sala de aula. A criação de aparelhos auditivos para indivíduos que não tiveram uma perda total da audição ampliam a forma de ensino-aprendizagem. Os aparelhos auditivos são peças eletrônicas de alta precisão que os ajudará a perceber e reconhecer sons, trazendo maior conforto e tranquilidade em diversas situações do cotidiano e no convívio com as pessoas. Se o aluno que sofre com perda auditiva tem a possibilidade de ampliar o campo da audição, além de se comunicar com Libras, será mais fácil a leitura labial, favorecendo uma melhor compreensão da língua portuguesa.

5. Tecnologias voltadas para o uso de pessoas com deficiência auditiva

Não é de hoje que as pessoas com deficiência encontram na tecnologia subsídios para abater os problemas decorrentes de suas limitações. O conteúdo de ITA, do curso de Tecnologias em Educação (2009) traz evidências de que os soldados norte-americanos que tiveram seus membros mutilados pela violência da II Guerra Mundial encontraram nos diversos aparelhos mecânicos uma forma de recuperar os movimentos paralisados e a auto-estima. Hoje em dia existe uma gama de meios tecnológicos que permite a participação social das pessoas com deficiência. Mas será que todos os deficientes conhecem e têm acesso a essa tecnologia? Até que ponto as pessoas com deficiência auditiva se beneficiam com o advento dos recursos tecnológicos?
Desde cedo as crianças com deficiência auditiva aprendem a conviver com as dificuldades que limitam sua capacidade de interagir com o mundo. Segundo Valente (1991), “[...] essas deficiências podem impedir que estas crianças desenvolvam habilidades que formam a base de seu processo de aprendizagem”. Do mesmo modo, impedem a execução de atividades que podem ajudar os educadores a entender e avaliar a capacidade intelectual de cada infante. Uma das vertentes deste trabalho é compreender se a tecnologia pode oferecer instrumentos que minimizem as limitações dos surdos, possibilitando a estas pessoas a opção de ter uma vida mais independente e realizar atividades que antes era considerada inexequível.
A partir do século XX, surgiu no mercado mundial os primeiros aparelhos para surdez e, hoje, dispõem-se não só de aparelhos mais modernos, como também de vários produtos e serviços de comunicação e sinalização especial.
A Koller, única empresa especializada na América do Sul, responde pela fabricação e comercialização de aparelhos para surdez e outros produtos e serviços no Brasil, como relógios, despertadores, Telefonia Para Surdos, dentre outros. Os telefones para surdos, conhecidos no Brasil como TTS (Terminal Telefônico para Surdos) e internacionalmente como TDD (Telephone Device For Deaf), é um sistema de comunicação telefônica digital através do qual os surdos podem se comunicar com outras pessoas escrevendo suas mensagens em um teclado e visualizando em uma pequena tela as mensagens que lhes são enviadas.
Apesar da expansão dos meios alternativos para surdos, tecnologias como TTS/TDD (Telefones Para Surdos), sinalizadores de campainha, bebê choro, relógio despertador vibratório, infravermelho, sistema FM etc., ainda não são instrumentos acessíveis para todos, pois existem muitos surdos que não conhecem, principalmente àqueles que moram distantes das grandes cidades. Assim, os aparelhos para surdez lideram o ranking dos recursos mais populares, bem como os telefones celulares (mensagens de textos), além de legendas nos filmes e programas de televisão. De acordo com o XV Congresso da Federação Mundial de Pessoas surdas (FMPS, 2007), “o desenvolvimento técnico ajuda a participação social das pessoas surdas, mas são necessárias mais medidas para que todos tenham acesso às novas tecnologias, sobretudo nos países pobres”.
Visualizando a evolução tecnológica para surdos, vemos que há aproximadamente duas décadas, os surdos tinham como alternativa a comunicação escrita – a saber – a carta. Depois tivemos o Pager (bip) que era usado digitando a mensagem, porém nada comparado ao serviço de mensagens que temos hoje. Chega-se à época do celular analógico que permite então uma maior interação entre os surdos, embora estes tivessem que esbarrar na dificuldade em usar o português, ou seja, a linguagem falada em nosso país difere da linguagem de sinais, acrescida da leitura labial.
Houve o tempo do TTS/TDD, porém o interlocutor também devia ter o mesmo equipamento do outro lado da linha, o que também tinha altíssimo custo. Hoje ainda vemos esses aparelhos dispostos em determinados shoppings em alguns estados do Brasil, mas quase ninguém utiliza. Simultaneamente temos o milagre da Internet cuja comunicação é facilitada, embora a grande maioria não possa ter um computador em casa, devido a seu custo. Com a tecnologia 3D: texto, voz, Internet Full Time, Messenger, e-mail, Vídeo-Conferência e SMS, todos esses recursos integrados num único equipamento - o computador - permite que os surdos usem a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) de forma funcional.
Em relação à aprendizagem dos surdos em classes regulares, conta-se com o sistema FM, que é um dos recursos atualmente disponíveis para auxiliar o portador de deficiência auditiva, pois incide no uso de sistemas de transmissão sonora por ondas de frequência modulada. Cada sistema de FM consiste em um transmissor com uma frequência de rádio específica, com antena e um receptor compatível, que capta a fala do professor e transmite diretamente para o aparelho auditivo do usuário, eliminando qualquer interferência de sons ambientais. O sistema FM tem sido utilizado com sucesso em vários tipos de população de deficientes auditivos. Têm se mostrado efetivos não só com portadores de deficiência auditiva severa e profunda, mas também com crianças que apresentam perda auditiva unilateral, pessoas com perdas auditivas leves e moderadas, indivíduos com disfunção auditiva central e crianças com distúrbios de desenvolvimento. (MONTANO, 1999).
Atualmente é possível que de qualquer parte do país ou do mundo, dois surdos possam se comunicar livremente sem ter que pedir ajuda a ninguém, o que, diga-se de passagem, nem sempre acontece, haja vista que além do custo de aquisição do equipamento o usuário precisa cobrir as despesas de conexão. É aqui que se vislumbra a responsabilidade social do poder público, das operadoras, da comunicação móvel, da sociedade em geral.
É necessário, portanto, um olhar criterioso em volta da priorização da comunicação entre as pessoas surdas, visto que além de ser uma necessidade de sobrevivência, é também uma forma de inserção social. Nas palavras de Parise[3] (2009):

Pobre tem Bolsa Família, nós podemos ter uma ajuda para esse fim, pois a maioria dos surdos além de ter deficiência auditiva, tem deficiência financeira, ou seja, estão situados nas classes menos favorecidas e não teriam [...] dinheiro para obter o equipamento mais despesas de comunicação.

          
6. (In) Conclusões

Considerando o exposto anteriormente, percebe-se que quando a sociedade entende que a limitação dos surdos é apenas de natureza auditiva, não afetando os aspectos cognitivos, o seu potencial de aprendizagem é evidenciado. Claro que não é fácil o indivíduo surdo inserir-se socialmente, pois antes de superar os paradigmas sociais, precisa superar seus próprios limites. A tecnologia tem assumido um papel preponderante, frente aos desafios enfrentados pelos portadores de necessidades auditivas especiais.
 É importante salientar que para que o isolamento não aconteça é fundamental que a família, a escola e demais grupos sociais abriguem , respeite e disponibilizem os meios necessários para o desenvolvimento pleno do portador de deficiência enquanto ser social.
No Brasil, várias ações são desenvolvidas com a intenção de favorecer a inclusão social do deficiente auditivo. Em 2004, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, para atendimento irrestrito, proporcionando atuações para prevenção e identificação precoce de problemas auditivos. Os recursos disponíveis para o DA (TDD, mensagens SMS, legenda oculta, computador e internet) estão sendo acessados e diminuem os estorvos de comunicação. Na educação, os dispositivos de comunicação (LIBRAS ou leitura labial) beneficiam a integração e acesso ao conhecimento.




7. Referências Bibliográficas:

(presumidos familiares e não familiares) em portadores de deficiência mental surdos.Tese de doutorado não publicada, UFSCAR: São Carlos, SP, 2002.
BOTELHO, P. Segredos e Silêncio na Educação dos Surdos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Libras em contexto – curso básico – livro do estudante/cursis­ta. Brasília: SEESP, 2001.
Deficiência auditiva e tecnologias. Grupo 06.Paraná, 2007. Disponível na Web em: http://deficienciauditiva.blogspot.com. Data de acesso: 24/11/2009, às 8h50.
LIMA, Priscila Augusta. Uma reflexão sobre o ensino-aprendizagem. Artigo publicado na edição 1560 do Boletim da UFMG, p. 2. Disponível em: http://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=78. Último acesso: 29/11/2009, às 23h23
Linguagem Brasileira de Sinais. Administração Regional do SENAC no Estado de São Paulo. Módulo 01, 2º Edição Revisada. SENAC, SP, 2006.
Linha do Tempo: A História da Educação dos Surdos. Brasília: DFJUG, Instituto CTS,   ProjetoRybená. Disponível na Web em:http://www.dfjug.org/DFJUG/index.jsp?centro=rybena/rybena_linha_tempo.jsp. Acessado em: 24/11/2009, às 10h13.
MANTOAN, Maria Tereza Eglér. Caminhos pedagógicos da educação inclusiva. In: GAIO, Roberta; MENEGHETTI, Rosa Gitana Krobetal. Caminhos pedagógicos da educação especial. RJ: Vozes, 2004.
MONTANO, j. Sistemas e equipamentos auxiliares para os deficientes auditivos. Cap. 42. In: Katz, J. Tratado de audiologia clínica. 4ª Ed. São Paulo: Manole, 1999.
OLIVEIRA, C. S. Formação de classes de equivalência com estímulos arbitrários
PARISE, Eduardo Munhoz. Tecnologia para surdos: deficiente auditivo ou surdo. Coordenador de Pesquisa e Tecnologia. São Paulo: Associação dos Surdos de São Paulo – ASSP, 2009. Disponível em: http://assp.sur10.net/2009/09/01/tecnologia-para-surdos-deficiente-auditivo-ou-surdo/. Data de acesso: 24/11/2009, às 9h20.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATOLICA DO RIO DE JANEIRO -  PUC/Rio.    Coordenação Central de Educação à distância – CCEAD. Seminário: Inclusão e Tecnologias Assistivas.  Especialização em Tecnologias da Educação. Maceió, 2009. Disponível em:  http://www.proinfo.gov.br.
RUSSO, Ieda Chaves Pacheco. A importância do diagnóstico da deficiência auditiva e do processo de intervenção precoce na criança. São Paulo: Estrutura Web, 2007. Disponível na Web em: http://www.vezdavoz.com.br/2vrs/vezdavoz.php. Acessado em 25/11/2009, às 13h34.
SÁ, N. R. L. Escola inclusiva: confrontando o paradigma. INES Espaço, jun., p. 29-34, 1997.
SANTANA, Ana Paula. Surdez e Linguagem: aspectos e implicações neurolinguísticas. São Paulo: Plexus Editora, Edição 2007.
SOUZA, Regina Maria de; ARANTES, Valéria Amorim; SILVESTRE, Nuria. Educação de Surdos: pontos e contrapontos. São Paulo: Summus Editorial, 2007.
VALENTE, José Armando. Liberando a mente: computadores na educação especial. Campinas: Unicamp, 1991.


[1] Este movimento foi incentivado pela publicação de um livro sobre Modelo de Educação de Surdos na Alemanha, a nível institucional, iniciado por Samuel Heinicke.
[2] RUSSO, Ieda Chaves Pacheco, Fonoaudióloga, Doutora em distúrbios da comunicação humana pela EPM/Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e diretora do Centro de Estudos dos Distúrbios da Audição (Cediau).
[3] PARISE, Eduardo Munhoz. Tecnologia para surdos: deficiente auditivo ou surdo. Coordenador de Pesquisa e Tecnologia. Associação dos Surdos de São Paulo – ASSP: São Paulo, 2009.

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